Portugal enfrenta uma escassez crítica de educadores de infância, com impactos imediatos e riscos de encerramento de escolas inteiras nos próximos anos.

A educação infantil em Portugal vive uma crise sem precedentes, que já não é apenas uma previsão: é uma realidade.

Se até agora o problema das famílias era a falta de estabelecimentos de creche e de jardim de infância em Portugal para dar resposta às necessidades existentes, havendo apenas uma cobertura para 53% das crianças dos 0 aos 3  nos, acresce um novo desafio com a falta de educadores profissionalizados nesta área.

Segundo o estudo “Estado da Educação 2024” do Conselho Nacional de Educação, a educação pré-escolar sofrerá a maior perda relativa de docentes nos próximos dez anos: ou seja 55% do seu corpo docente irá reformar-se,  exigindo 4 053 novos educadores. Este problema afetará jardins de infância e estende-se também às creches, onde é obrigatório haver educadores de infância nas salas de 1 e 2 anos. Sem estes profissionais, não é permitido manter salas abertas — e isso já começou a acontecer no final do ano de 2024.

O problema não é futuro, é presente.

Atualmente, várias salas de creche e de jardim de infância (chamado pré-escolar) encontram-se sem educador de infância devido a saídas destes profissionais para a rede pública, para a reforma ou devido a baixas médicas, sem  possibilidade de substituição. A escassez é tão grande que muitas instituições não conseguem contratar educadores para o quadro de pessoal, muito menos para fazer substituições. Esta situação poderá levar ao encerramento “temporário”de salas e, em alguns casos, ao fecho de estabelecimentos inteiros, como já começou a acontecer em vários pontos do país, porque sem educadores não é legalmente possível manter as crianças nas salas. E, se não se consegue manter as salas existentes, muito menos se conseguirá abrir novas salas, apesar de avultados investimentos já feitos na construção de novos equipamentos e das autorizações emitidas pelo ministério da tutela.

Por que chegámos aqui?

O envelhecimento da classe docente é uma das principais causas: muitos educadores aproximam-se da idade da reforma, sem que exista uma renovação proporcional. A carreira pouco atrativa, marcada por salários baixos e condições exigentes, desmotivou novos candidatos. A oferta limitada de vagas nos cursos de formação agrava o problema, criando um défice estrutural difícil de inverter.

Impacto direto nas famílias e nas crianças.

Com menos salas abertas, os pais enfrentam dificuldades para garantir um lugar para os filhos, aumentando a pressão sobre os custos familiares. Em casos extremos, alguns já estão aabdicar do trabalho para cuidar das crianças, afetando a economia familiar e a taxa de participação feminina no mercado laboral. Para as crianças, a falta de acesso à educação entre os 0 e os 6 anos pode atrasar o desenvolvimento cognitivo e social, perpetuando desigualdades sociais e aumentando o risco de insucesso escolar. 

Consequências para o país.

A médio prazo, esta crise compromete a coesão social e a capacidade do país de formar cidadãos preparados para os desafios do século XXI. Sem uma educação infantil de qualidade, Portugal arrisca perder uma geração em termos de competências e oportunidades.

Que medidas são urgentes?

É imperativo valorizar a carreira docente, oferecendo melhores condições salariais e oportunidades de progressão. É necessário reforçar a formação inicial e contínua, aumentar as vagas nos cursos e criar incentivos para atrair jovens para a profissão. A educação infantil deve ser encarada como uma prioridade estratégica para o desenvolvimento nacional. No entanto, estas medidas levarão anos a surtir efeito, pois um mestrado demora 5 anos a realizar. Seria necessário o Governo aprovar medidas urgentes, mesmo que temporárias, para fazer face à situação imediata, como a contratação de outros técnicos especializados (como já acontece em outros níveis de ensino) ou a contratação de educadores só licenciatura. No entanto, apesar dos apelos das associações do setor, a ausência de resposta tem sido a regra.

Conclusão

A falta de educadores de infância não é apenas um problema do setor educativo, mas uma questão que afeta toda a sociedade. Sem educadores, não há salas abertas. Sem salas abertas, não há respostas educativas para milhares de crianças nem soluções para as famílias poderem ir trabalhar. Investir na educação infantil é investir no futuro do país. O tempo para agir é agora.